Páginas

domingo, 1 de abril de 2012

Pasmo por um espasmo

Ao ouvir que a Lua parecia estar mais próxima da Terra e no mesmo instante perceber que nem de longe ou ao lado da Lua poderia ter notado aquilo, como em um pequeno espasmo, ficou pasmo.

Concordou com a proximidade da Lua e logo em seguida passou para os rebuliços rotineiros que vivem a turbilhonar sua cabeça. Essa Lua de tão próxima lembrava o rosto de uma mulher naquela proximidade que existe antes de um primeiro beijo e que pode ser imperceptível.

O tempo fica por um instante breve e longamente imóvel, a relatividade dele é experimentada naqueles poucos segundos. A face daquela que será beijada parece estática e onde o único sinal de vida é o brilho dos olhos refletindo a luz do ambiente como se fosse um espelho ausente de prata, mas composto de uma textura que é visivelmente úmida e enternecida por vontade e de um desejo que só pode ser medido por aquele que também a olha. A aproximação parece lenta como os ponteiros do relógio que ficam tortos vagarosamente no seu eixo só para marcarem as horas, minutos e segundos. Tudo parece lento, mas também intenso.

Como a Lua em sua proximidade está envolta do negro do céu, tudo naquele instante também fica sem cor, mas enegrecido por culpa das pálpebras fechadas por dois desejos e dois desejantes, algo que normalmente acontece de forma tão abrupta que nem percebemos e temos a impressão de estarmos constantemente acordados e alertas para tudo que passa ao nosso redor. Os olhos parecem não se fechar no dia a dia. Tudo fica preenchido de volúpia, um sabor quente e umidificado se torna realizado e com um cuidado redobrado tudo se toca sem saber o que se espera dos próximos segundos, horas e dos outros encontros.

terça-feira, 27 de março de 2012


O pai nosso nos abandonou,
A Ave Maria é monótona,
A caridade um mau espirito
Só restou a feroz batalha terrestre
Sangrenta e nobre como a dos espíritos.
Tenho um apetite pela fome
Não sou fantasma ou alma
Passo rápido como sombra ou espectro.
Alguns minutos atrás, enquanto eu estava saindo do bloco B da UEPG um homem estava diante da porta falando alto, dizendo que os vícios do céu estavam agora na Terra, que era vegetariano a mais de 40 anos...

Em meio a felicidade que senti ao ouvir ele contar isso, acabei agindo como um bom cidadão e da forma mais comum possível e ignorei o homem.

Engraçado que durante todo o caminho de volta, em uma mistura de culpa e orgulho, na minha cabeça uma frase soava como o som pesado de um sino que dobra para anunciar as horas:

"A honestidade de mendigar, me aflige."

Rimbaud

Senti o dessabor da liberdade. Notei novamente (ou viajei esquizo?) o quanto escravo sou, enquanto liberto. Não tive os tostões da coragem para falar com aquele homem. Não consegui entende-lo. Fiquei exasperado.

"A honestidade de mendigar, me aflige."
"A honradez da da mendicidade exaspera-me"
"L'honnêteté de la mendicité me navre."

E como no poema de Hans Magnus Enzenberge, Hotel Fraternité:

"Meu inimigo
Debruçado sobre o balcão
Na cama em cima do armário
No chão por toda parte
Agachado
Olhos fixos em mim
Meu irmão"
Sou escravo enquanto liberto.

Meu inimigo


O que havia começado,
Como um pequeno exercício,
Hoje me faz de condenado,
Pois acabou se tornando um pesado ofício

Em uma das mãos carrego desesperos.
Na outra sufoco as tristezas.
Mas quando olho bem,
Vejo o quanto de vida e felicidade há em nelas.

sábado, 24 de março de 2012

No meu túmulo não quero a eternidade do epitáfio
Quero a das flores, muitas rosas
Margens das existências
E para que durem a minha na eternidade
Quero que sejam rosas de ferro.