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quarta-feira, 21 de março de 2012

Antes
Só com cores eu fazia.
Hoje, se possível eu pintava,
Até com espirro de alergia. 
Uma coisa que aparece,
Alguém odiando a espécie.

E espécime,
É coisa de umbigo.
Só to dizendo, partindo,
De qualquer livro lido.

Eu até que entendo. Sem sacralidade...
Do que eu li
Nunca encontrei livro ou papel ruim.
Seja A4, seda, eucalipto ou capim,
Pois palavra alguma foi escrita com ou no marfim
 

terça-feira, 13 de março de 2012

Quando consegui
Que houvesse silêncio em mim
Notei-me arrogante e pedi
Para o mundo também ficar quieto
Quando me calei por inteiro
E poucas boas noites de sono vieram,
Finalmente eu ouvi as lamúrias
Que eram nebulosas e inaudíveis
Pelo estrépito do espirito

Essas doses, hoje tão ausentes
Construíam um suporte
Pois quando me deti
Vi o suporte
Que haviam em mim
Sempre será um riso
Gargalhada do idiota
Mas os ouvidos só serão abertos
Para poucas bocas

Demônio vaidoso
Bastardo dos meus terrores
Filho de cenho luzidio
Por sonhos e pesadelos
Vai embora e deixa para mim
Somente o sono
Descanso frugal
Já que contei as estrelas
E contei por tanto tempo
Do que eu fazia
Desenhei números na minha testa
Cometi descasos com o infinito
Sem saber do infinito que há em mim

Ofereço uma taça do vinho mais tórrido
Ardente de sabores e capaz de embriagar
Com seu cheiro
Cultivado com uvas verborrágicas
E envelhecido nas vinícolas de ardentes paixões
Fico torpe com próprias nervosidades
Pois se as ardências do vinho, provem de sua cor
Eu já deveria saber que meu sangue sempre fora
Da cor mais rubra e corria nas veias mais dilatadas
Mas nunca fui o melhor ou o pior por isso
Sempre fui algo que nunca soube ser

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O teto veste 
Uma camisa cor de tempestade
Azul escuro, chumbo anilado
Talvez fica nu de seu algodão

Do céu sem gotas
Seco como a garganta
A pluma cai, dançando sinistramente
Vem e vai
E com ela, outras mil
Tornando o chão grosso travesseiro

Ou então
Um chão colchão
Macio e confortável
Claro e repugnante

Assim um poeta
Além de criador,
Escultor da vida e do pensamento
É antes de mais nada um covarde

Um efémero das felicidades
Um cultivador da tristeza
E só se arma, as vezes herói
Quando empunha uma pena

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Prece para um poeta


 Fui para a guerra, coroado com cicatrizes, machucados, cortes, ferimentos sufocados, o sangue marcava os curativos. É um cão, animal dividido, cortado e com os nervos a mostra. Sofre e cospe tudo que tem de impuro. Não está salvo, o interior é sujo e retorcido. Agora te deita e adormece rodeado das papoulas e reina com o teu próprio sono.

Se me lembro bem, as cápsulas são de veneno, carregam pequenos infernos, doses em oitavas e que regem o coro das reações. Cozinham-me o corpo, os órgãos e marcam o sabor, tatuam na língua um gosto áspero, amargo e que parece ser o trilhar da cura, o préstito para as minhas contaminações.

Assim, me recordo de um sujeito, e como estupefatam suas palavras, folego custoso e que descanso meus olhos, levanto o cenho, admirado e com fundos de inveja. Com os teus 21 anos foi um maior, vencedor e com um triunfo perdido. Foi idolatra dos que havia de desdenhar, foi um baluarte, carregava a bandeira da vil tropa que caminha sobre a Terra. Infante da língua, fez terríveis, sofríveis e maravilhosas experimentações. Fez alquimias, troça e desconcerto com as filosofias, que no Ocidente são desagradáveis e tocantes no Oriente. O que fazem da mente os homens?

Pois bebi das tuas palavras, do teu cerne, absorvi o sangue das entranhas, Roubei teus estilos mas ainda tento compreender as vidas, as criatividades e uma morte prematura, pois foi embora, pequeno, pérfido e ardiloso Rimbaud. O Arthur, maior do que um rei, maior que os reis.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

E se o chão fosse também um teto!?
E porque só nomear as cores,
Com as 26 letras do alfabeto?


E quanto aos sentidos,
De oh, tão completos,
Ainda não dizem
De tudo?

Esse tal de tudo
É tanta coisa!?

Qual o sabor da cor?
E o odor da dor?
Que gosto tem o vermelho?
E qual sabor tem o amarelo?

sábado, 28 de janeiro de 2012

Culatra


Não que alça pinças
Como se fossem asas infames
Esmague o crânio e faça grão e cinza
Das contas do teu rosário
Ore por dores de cabeça, aflições
Para sofrer no cotidiano do calvário

Vinga com estrépido silencioso
E honra os antepassados com sonoras letras
O dia já pede adeus e a noite abraça
Junto a um manto negro
Sequioso pelas manhãs
E pelos amanhãs, estas,
Doces ilusões de abrangência estúpida
Mas que mantém a espinha ereta
Atrevido digo que todos nascemos no palco
de uma Vaudeville belamente decrepita

Qual o sentido de tanto amor com o oceano?
Temor de ter a ele como inimigo?
Sem falta, é na menor oportunidade
Que ele engole quando diz seu amigo
E todos os barcos, imponentes caravelas
Com minusculos marinheiros
Arriscam-se no mar, como a luz da vela
Bruxuleante sob o luar
Pois enquanto queima, a pergunta que faz
Vai desde saber a força da luz que tem sob a Lua,
Ou da fraqueza que demonstra por resistir aos ventos
Fortes e que não se detêm dentro da rua

Tragam um lenço,
Ou injetem morfina
Anestésico de meu abdômen
Tudo que escrevo
Do rastilho de pólvora
A trilha de pó
é onde vomitar dores
Embarco sobre o Lete
E tomo das águas
Esquecido, reencarno
Vazio, entendiado
Derretido sobre a culatra